terça-feira, 18 de maio de 2010

NOTAS SOBRE O CASAMENTO

Os sectores mais conservadores da direita (e de alguma esquerda) andaram anos a dizer que o casamento entre pessoas do mesmo sexo provocaria alarme social, fazendo desmoronar a família tradicional. Fracas convicções por parte de quem devia respeitar o conceito de família. Na realidade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo provoca um enorme bocejo na larga maioria da população. A generalidade dos portugueses heterossexuais dá-lhe a importância que eu dou aos arraiais populares: não frequento, passo ao largo, mas longe de mim pensar em acabar com eles. Os arraiais são parte da tradição (i.e., da cultura), animam a economia e fazem muita gente feliz. O casamento entre pessoas do mesmo sexo vai tornar mais justa a vida de muita gente. Há menos de cem anos, o casamento civil entre homens e mulheres ainda era uma heresia no nosso país. É fatal: o mundo pula e avança.

Se houvesse alarme, a sociedade tradicional tinha-se mobilizado. Ora nem a Igreja, que se limitou a cumprir os mínimos, nem os partidos da direita, desobrigados de acção directa para lá da retórica parlamentar, fizeram mais do que salvar as aparências. Em Fevereiro, a marcha da indignação deu a medida do desinteresse do país real.

Dentro de dias, quando for publicada a Lei ontem promulgada pelo Presidente da República, Portugal tornar-se-á o oitavo país a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para já, os outros sete são a África do Sul, a Bélgica, o Canadá, a Espanha, a Holanda, a Noruega e a Suécia (cinco monarquias!). Além destes, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em seis estados americanos: Connecticut, District of Columbia (Washington), Iowa, Massachusetts, New Hampshire e Vermont. E também na tribo Coquille da Nação Navajo. E ainda na cidade do México e no estado de Coahuila. Israel, por exemplo, não casa mas reconhece os casamentos efectuados noutros países. Estamos a falar de casamento.

Porque se falarmos de uniões civis registadas (casamentos que não se chamam casamentos), a lista de países inclui: Alemanha, Andorra, Áustria, Colômbia, Dinamarca, Equador, Eslovénia, Finlândia, França, Gronelândia, Hungria, Islândia, Luxemburgo, Nova Caledónia, Nova Zelândia, Reino Unido, Suíça, Uruguai, bem como as ilhas Wallis e Futuna da Polinésia francesa.

Isto para dizer que não estamos a falar de extravagâncias residuais, como pretendem umas dezenas de bloggers e meia dúzia de articulistas. A título de exemplo, é superior a cinquenta o número de países onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo ocupa a agenda política.

E escusa a D. Isilda de preocupar-se: «Quem é que trata destas pessoas na velhice? Não têm filhos, nem podem ter netos. Também têm direito a ser tratados, logo, vai sobrar para todos nós. Vai sobrar para os contribuintes.» — vd. CM. Infelizmente, todos os Verões, os hospitais civis têm de abrigar centenas de homens e mulheres de idade avançada que os filhos ali deixam, abandonados, antes de partirem para os Algarves e as Cancuns da vida. Sim, estou a falar de famílias tradicionais. Nada que a D. Isilda não conheça.

por Eduardo Pitta em Da Literatura

Sem comentários:

Enviar um comentário